Viene y va

É a memória de uma outra vida, ou é a vida que podia ter sido. Ninguém cai no abismo sem história. Então há a mulher que teve tudo, há o homem que podia ter sido, a miúda que sonhou com o triunfo. Este é o outro Intendente, o que escapou às fachadas renovadas, o das sombras que toda a gente adivinha e ninguém consegue olhar. Aqui vão ruínas do sonho, almas em queda, tomem lá os bichos. E é só depois de olhá-los de frente que se pode perceber a “bela inocência” a que uma puta aspirou num poema. Eles são os outros? Eles somos nós.

Ricardo J. Rodrigues

Viene y va
Sé que nada puede ser igual que ayer es impossible todo está al revés. Nada es igual. Permite que describa mi silencio. Y tú tan diferente a las demás.

Bella inocencia, linda ingenuidad. Te digo adiós, no queda nada de lo que fué y por perder perdiste hasta tu voz te ruego que no dañes a este pobre corazón te habla mi interior…

Viene y va, que dulce agonia el reservarte al amar, que ocultas hablando hasta el amanecer si duermes soñando que rozo tu piel.

Viene y va, enseñame el arte de sentir sin amar porque desde el suelo solo veo tus pies. Cuando no eras nada, eras todo. Y ahora con todo, eres nada otra vez…

Sé que nada puede ser igual que ayer es imposible todo está al revés. Que más me dá, me he dado cuenta de que gano si te pierdo.

Por ti, he descubierto que nos eres el fin. Existe un mundo en el que no estas tu pa que mentir? Ya no eres nada para mi…

Soraia Ribeiro

Mudei muito a minha perspectiva sobre a prostituição desde que a andei a fotografar no Intendente, no ano passado. Contrariamente ao que se quer fazer passar como ideia de modernidade, ser a favor da legalização parece-me agora ser muito mais próximo dos que promoveram a escravatura em séculos passados.

 

Durante o meu trabalho no Intendente, conversei demoradamente com muitas mulheres que se prostituíam. Interessava-me perceber que percurso de vida tinham tido até ali chegar. Leva tempo a saber. Fui várias vezes tomado como polícia infiltrado, corriam boatos vários a meu respeito que tanto me dificultavam a entrada naquele mundo, como também chegaram a salvar de uma ou outra situação mais complicada. Conhecer as vidas daquelas mulheres leva tempo, confiança e muita partilha. Nenhuma das mulheres era prostituta por vontade. Todas as que conheci chegaram ali depois de vários acidentes e fracturas. Uma delas estava há pouco tempo naquela vida. Tinha dois empregos, mas perdeu um. Nas vésperas de perder a casa onde morava sozinha com o filho pequeno, desesperada, sujeitou-se. Uma vez. E outra e outra. Para aliviar o nojo que sentia, bebia whisky barato, vendido a copo de plástico nas mercearias da zona. Um dia, alguém lhe irá propor que fume crack, porque ajuda a esquecer melhor.

 

Perguntou-me se podia fumar. Disse que a descontraía, que depois o resto custava menos. Preparou o cachimbo com a dose de crack, comprada na rua por 10€, em dealers de esquina que guardam as porções em pequenas bolas de meio centímetro de diâmetro, embrulhadas em papel celofane. Os dealers guardam-nas na boca, entre as gengivas e a bochecha. Às vezes, a dose está tão cortada que praticamente não faz efeito. Nessas vezes, custa mais estar no quarto.

 

Nas pensões em que entrei para fotografar, existe uma zona para hóspedes que procurem um quarto para passar a noite, e outra para os que apenas precisem de uma hora entre quatro paredes. Nestes, o aluguer é 5€, pagos à entrada. O valor cobrado pelas prostitutas varia conforme a idade, a procura do dia ou o desespero em conseguir algum dinheiro antes da noite acabar. Vi miúdas saídas da adolescência, acabadas de chegar ao bairro, cobrar 25€. As que traziam no corpo e na cara as marcas da idade e da saúde minada, pediam 20€. Isto nos dias mais optimistas, porque podiam baixar para 15€ ou mesmo 10€, quando a ressaca do crack começa a bater. Uma vez, eu estava a conversar com uma das mulheres com quem passei mais tempo a ouvir as histórias da rua, quando chegou uma amiga dela. Vinha enervada. Ofendida. Um homem queria ir com ela por 7,5€, sem preservativo. Ela recusou. Mas ainda eram seis da tarde.

 

Também eu precisava de beber para ali estar. Na rua, era sempre olhado como um outsider. Serei sempre, espero, olhado como um outsider. Acho que todos, no fundo, gostariam de ser outsiders daquele mundo. Não conheci ninguém que me dissesse não querer sair daquelas ruas, por mais agarrado à droga ou ao álcool que estivesse, por muito que fosse naquele lugar que conseguisse aliviar as dores da ressaca. Destruídos todos os vínculos familiares, detonada qualquer rede de suporte a uma vida estruturada, reduzidos os objectivos de vida ao consumo da próxima dose, a criminalidade e a prostituição tornam-se as vias mais fáceis para obter o dinheiro necessário para esse alívio. Como se resolve isto?

 

Foi a primeira mulher que fotografei num quarto de uma pensão no Intendente. Estava encostada à parede, numa esquina, a beber moscatel, quando, depois de algum tempo a ganhar coragem, lhe expliquei o que andava a fazer. Queria fotografa-la, no quarto, e que me explicasse como tudo acontecia lá dentro. Segui-lhe os passos, entre vielas, com o coração a bater-me como um bombo nos ouvidos. Há uma porta, com o nome da pensão escrito num toldo, e umas escadas íngremes para o 1º andar. A recepcionista já sabia ao que íamos, sem saber, na verdade, exactamente ao que íamos. Paguei 5€ pelo quarto. Entrámos, fechei a porta. Estava nervoso, indeciso quanto à luz. Ainda era dia, havia uma janela, mas a lâmpada fluorescente do tecto dava um ar mais cru ao assunto. Pedi-lhe para se sentar. Queria saber mais sobre ela, queria conversar um pouco antes de começar a sessão. Senti necessidade de dizer que era importante para mim que aquela experiência não lhe fosse desagradável. Não reagiu àquele momento de hipocrisia judaico-cristã. Contou-me a história dela, ou parte dela, ou talvez um conto para entreter meninos. Nunca saberei. Depois, despiu-se e eu pedi-lhe para pousar. Primeiro à janela, depois junto ao lavatório, a seguir na cama. Senti-me uma fraude, sem noção do que queria, sem perceber que trabalho estava ali a começar. Tudo me parecia forçado e artificial. Senti desconforto nela. Perguntei se a incomodava estar ali comigo. Sim, incomodava. Por muito que não gostasse de se prostituir, incomodava-a mais ainda ser fotografada ali. Pedi-lhe desculpa, parei de fotografar, paguei-lhe os 15€ que me pediu e fomos embora. Descemos as escadas juntos, seguimos pela rua que regressava à esquina onde nos tínhamos encontrado. A meio caminho, trocámos uma despedida rápida. Segui para casa, colina acima. Não me lembro o que jantei, o que vi na televisão, o que conversei nessa noite. Falei pouco sobre aquela tarde. Foi-me difícil digerir o assunto. 15€. Aquela mulher vendeu-me a dignidade por 15€, e eu paguei.

 

Entrevista sobre o projecto em “O Corvo”, Outubro 2017, aqui.

Entrevista ao jornal da Voz do Operário – Outubro 2018, aqui.

  • Date:

    2017
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    Projects