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Cães, Deuses e Outros Homens

A minha relação com a morte começou cedo. Fui um filho tardio dos meus pais, a minha mãe tinha 41 anos, o meu pai 44. Os meus colegas, no jardim de infância, perguntavam-me se aquele senhor que, às vezes, me ia buscar era o meu avô. A matemática era simples e eu fazia-a de forma angustiada. Os meus pais iam morrer mais cedo do que pais dos meus colegas.

Os meus pais eram dois polos opostos e, infelizmente, não complementares. A minha mãe era uma pessoa que não se coibia de dizer o que pensava, emotiva, intuitiva, com curiosidade e fascínio diletante por crenças que lhe chegaram da família. Chegou a deitar cartas de Tarot, era frequentemente requisitada pelas minhas tias e primas, que depositavam nas suas capacidades de médium a esperança da resolução dos problemas que a vida lhes ia criando. Havia também, lá em casa, nalgumas noites que eu vivia entre a excitação das reuniões de família e do relativo secretismo envergonhado com que eram organizadas, sessões de espiritismo – pelo menos eles chamavam-lhe assim – que consistiam no que agora se encontra descrito como ouija, a comunicação com almas vagantes através das letras e números marcados numa folha de papel, sobre o qual deslizava um pires comandado por várias mãos simultâneas. Apesar dos possíveis fenómenos paranormais contados pela minha mãe e que me faziam delícias, nunca aconteceu nada de sobrenatural naquelas noites. Nunca me assustou aquilo que sempre encarei como uma brincadeira de crianças feita por adultos.

O meu pai, que não me lembro de alguma vez ter estado presente em qualquer destas noites, era o oposto da minha mãe. Racional, dedicado à lógica, à política e à filosofia, lia muito sobre ciência e tinha um condescendente cepticismo pela necessidade das pessoas em acreditar no oculto. Com ele, meu modelo de homem renascentista, desenvolvi o dogma de que o nosso tempo no Universo se limitava à presença física neste planeta, um segmento de recta temporal limitado pelo nascimento e morte. Apesar das angústias de infância pela anunciada mortalidade dos meus pais, na adolescência, passei a encarar com frieza cortante a finitude da vida.

Até que o meu pai adoeceu. E, passados os primeiros meses de absoluta crença na ciência, que iria dar conta do cancro que – sei agora -, lhe consumia o corpo, o meu pai foi internado nos cuidados paliativos do IPO, em Lisboa. Em menos de uma semana, a brutalidade da falência de um corpo doente obrigou-me a ver o que o meu estado de negação tinha impedido de perceber até aí. O meu pai definhou primeiro pela prostração física. A seguir, pela confusão da mente e, por fim, num coma induzido pela morfina que pelo menos, quero continuar a acreditar, lhe retirava as dores excruciantes. Eu tinha 18 anos. Em menos de uma semana, as certezas dogmáticas sobre um assunto tão transcendente como a vida e a natureza da alma e do espírito foram arrastadas com as lágrimas e pela urgência de acreditar que aquela pessoa, com todas as características de personalidade, mais toda a biblioteca que lera durante anos, não podia ser tão frágil, dependente apenas da mecânica de neurónios e sinapses.

O meu pai morreu e um longo torpor tomou conta de mim. Vi turvo durante semanas, não pelas lágrimas, que eram secas, mas pela sensação devastadora da ausência, da impossibilidade de voltar a descer e subir as ruas de Lisboa na sua companhia. Turvo pela falta que me fazia para arrumar a cabeça de todos as ideias que a minha tonta adolescência concebia. A vontade de acreditar na eternidade da alma fazia-me procurar sinais onde, provavelmente, não existiam. Aos poucos, o olhar tornou-se fixo, interrogativo. Lembro-me de, certo dia, um velho na minha rua estar sentado no degrau de uma porta. Nunca o vira por ali e ficámos mais tempo a olhar um para outro do que as regras sociais aconselham. Uma parte de si parecia conhecer-me. Infelizmente, não tive coragem de falar com ele. Lembro-me de encontrar a minha tia, irmã do meu pai, que eu vira menos de dez vezes até aí – as famílias são todas disfuncionais –, ao virar de uma esquina no Bairro Alto, segundos depois de pensar nela. Procurava a presença do meu pai onde quer que fosse. O Benfica teve uma recuperação histórica num jogo europeu, em Leverkusen – nunca um empate 4-4 foi tão festejado – e, claro, em cada golo tive a permanente sensação de que havia ali uma ajuda do meu pai. Secretamente, abracei-o em cada festejo.

Três episódios ocorreram poucos meses depois, episódios que me marcaram para sempre. Um pássaro, ligeiramente mais gordo do que um pardal, de uma espécie que jamais vira ali ou noutro lugar – embora eu não tenha qualquer apetência para a ornitologia – entrou em minha casa. A primeira vez, foi fugaz, durou menos de um minuto, mas inusitada pela ousadia do pássaro. Entrou, caminhou sala dentro na minha direcção, estacou uns segundos à minha frente, e voltou a sair. Aquela calma decidida, o olhar pousado em mim, e – considerei na altura – a minha desesperada necessidade de sentir a extensão da vida além do que nos é dado ver, fosse de que forma fosse, fizeram-me falar com aquele pássaro como se pudesse ser uma incorporação do meu pai.

A mesma ave voltou a aparecer, uma semana depois. Era noite, a minha mãe dormia. Desta vez, não se limitou a avançar uns metros para lá da varanda. Voou para o topo da estante da sala, pousando na coluna esquerda da aparelhagem de som. O meu pai e eu ouvíamos muita música juntos, gostávamos de comparar versões das mesmas obras. Fui escolher alguns dos cds que, entretanto, tinha comprado. Sinfonias de Mozart, versões do Cravo Bem Temperado, um 4º do Beethoven pelo Gilels. Estivemos uma hora a ouvir música, com o pássaro tranquilo pousado na coluna, até que me lembrei que tinha encontrado a op.111 pelo Michelangeli, uma gravação que desconhecíamos existir. A op.111 era talvez a obra que mais ouvimos juntos e o Michelangeli um dos nossos pianistas preferidos. Quando soaram os primeiros acordes do primeiro andamento o comportamento do pássaro agitou-se, saltando da coluna esquerda para a direita, ora pousando em cima da estante. A op.111, pelo Michelangeli! Aos poucos, voltou a acalmar-se. Ouvimos toda a sonata, e fomos dormir. O pássaro ficou no topo de uma das colunas, eu deixei aberta a porta do quarto, que dava para a sala. Na manhã seguinte, acordei com o chilrear frenético de um bando de pássaros no lado de fora da varanda. O pássaro, que na véspera ouvira música comigo, não encontrava o caminho para fora da casa, voando em círculos dentro da sala. Foi uma das aves do bando exterior que entrou para se juntarem os dois no percurso de saída.

Passaram-se alguns meses. Não me recordo quantos, talvez dois, se calhar três. A angústia da morte do meu pai não desapareceu, mas ficou aliviada pelos acontecimentos daquela noite. Ainda assim, a possibilidade de tudo não ter passado de uma ilusão, de uma estranha coincidência, deixava-me uma dúvida céptica. Até que, numa manhã de fim de verão, acordei novamente com um chilrear. Espreitei pela janela, aproximando a cara ao vidro. Era, outra vez, um pássaro igual aos que nunca tinha visto antes destes acontecimentos. Não se assustou, não fugiu, nem mesmo quando abri a janela de madeira, perra com a artrose que a idade e os invernos húmidos provocam. Não se moveu um milímetro no parapeito, apesar do ruído e da vibração provocada pelo atrito da madeira na pedra. Sem saber exactamente como interagir, tive medo de o assustar, perdendo aquela possibilidade de voltar a estar com o meu pai, e afastei-me para a cama para me deitar por baixo do cobertor. A distância de segurança poderia prolongar aquele encontro. Mas o pássaro aproximou-se. Saltou da janela para cima do meu cobertor, caminhou sobre o meu corpo. Falei com ele. “Olha, já consigo tocar a aria das Variações Goldberg. Queres ouvir?”, e o pássaro saltou do cobertor para o chão e, entre pulos e passinhos, saiu do meu quarto, atravessou a sala e entrou na pequena divisão onde estava o piano, piano que trouxera de casa do meu pai, juntamente com o cadeirão onde se sentava a ler. O pássaro saltou para o cadeirão, virado para mim. Toquei a aria, sem interrupções, até ao desvanecer da última nota. A minha mãe chegara, entretanto, à porta do quarto e acabou por arruinar a poesia da cena, trazendo pão esfarelado para o pássaro comer. A situação irritou-me, pela intromissão, pela profanação e incompreensão daquilo que eu estava a viver. Agora faz-me rir. O pássaro voltou à sua forma natural e encheu a barriga de pão. Ainda hoje, quando relembro a história com a minha mãe, absolutamente convicto de que o meu pai me visitou nestas três aparições, ela pergunta: “Será possível?”(.) Não deixa de me espantar a dúvida que nela existe por cima de tantas noites de sessões de espiritismo, de tantas consultas de Tarot, nas quais a sorte e o futuro das minhas primas e tias era adivinhado e ouvido com total convicção.

Nunca mais voltei a ver aquela espécie de pássaro. Sem precisar de ter uma educação religiosa formal ou familiar, sem sentir necessidade de estar ligado a qualquer igreja, estes episódios reforçaram a minha espiritualidade. Não substituíram as conversas que gostaria de poder ter com o meu pai, não me aliviaram as culpas que carrego desde a sua morte, mas trouxeram-me um segredo que tenho guardado carinhosamente e partilhado apenas com um círculo próximo de pessoas. Como o que está agora a ler este livro.

Nota final: Terei de ser justo com a minha mãe, entre todas as injustiças que lhe vou cometendo desde que nasci. A minha mãe gostava de deitar as cartas de Tarot, mas na verdade passava o tempo todo a duvidar e a rir-se das possibilidades de leitura que davam as figuras metafóricas pintadas naqueles rectângulos. Também com as sessões de espiritismo me lembro agora de ouvir a questionar a democracia da aplicação das mãos no pires para o fazer deslizar sobre folha de papel com as letras marcadas. Suspeitava sempre que havia uns mais manipuladores (pun intended) do que outros. Depois, deixava cair com espanto histórias do sobrenatural. “O teu primo esteve a mexer no pires com os olhos fechados, a dormir, a uma velocidade doida.” Na verdade, lembro-me também de falar com o meu pai sobre estas sessões de espiritismo e dele dizer enigmaticamente que a mãe vivia uma espécie de paradoxo, queria acreditar e duvidar ao mesmo tempo. Talvez a minha mãe seja mais céptica do que me parecia. Talvez o meu pai o fosse menos também.

  • Date:

    2017
  • Categories:

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