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Cidade dos Imortais

Chego de comboio a Varanasi, ou Benares, para os mais antigos, a cidade continuamente habitada mais velha do mundo. Há pouco espaço para saltar da carruagem para a estação. No cais de embarque, os passageiros que querem entrar no comboio não esperam pelos que pretendem sair. Os que chegam e os que partem trocam de posições por osmose. Os corpos contorcem-se, como borracha, para abrir fendas na barreira humana que encontram à frente. Ninguém se exalta, a transmutação é uma prática ancestral na Índia. No átrio da estação há filas compactas de pessoas que se empurram para comprar bilhete. Há gente deitada em cobertores estendidos no chão, de olhos fixos num ponto indefinível, sem correspondência com o lugar. As horas passam mais lentas quando se espera.

A cidade repele-me tanto quanto me atrai. Ao longo dos dias em que lá vivo, passo ciclicamente por estados de encantamento e desespero, desejo de fusão e vontade de fugir. Fascinam-me as sucessivas camadas de realidade que se vão desfolhando, a sobreposição de sagrado e profano, os contrastes e ambiguidades que coexistem em cada rua. Intriga-me a relação dos hindus com a morte, o desapego que têm com a partida dos familiares, a sensação distendida de tempo que lhes relativiza o sofrimento.

A cidade velha tem a formalidade própria de um formigueiro. Existe um caos aparente, uma ordem difícil de entender aos olhos ocidentais, que dita os percursos, rotinas e horas dos que habitam e ali trabalham. Tudo acontece sem denúncia, como se as coisas brotassem naturalmente das pedras, como se de uma flor pudesse nascer um cão, de uma fenda na parede escorresse uma família enlutada, carregando um defunto perfumado com sândalo e jasmim, enfaixado com panos dourados, como se numa velha pudesse sorrir uma criança e esta nos olhasse com cinco mil anos de vidas passadas.

  • Date:

    2016/2017
  • Categories:

    Projects