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Depois de Manikarnika

A Manikarnika, o principal ghat crematório de Varanasi, chegam diariamente cerca de 250 corpos para serem reduzidos a cinzas. De noite, quando ali fotografo, é frequente ouvir os cães ladrar para as piras funerárias em chamas de onde os homens vêem apenas o fumo subir. Dizem-me que os cães conservam intacta a capacidade de ver as almas soltar-se dos corpos que ainda há dias animavam o mundo, a aura das pessoas que assistem ao fogo e se despedem dos mortos, fantasmas e outros deuses que por ali vagueiam. É a isso que ladram, dizem-me, às coisas que a maioria dos homens deixa de conseguir ver passada a primeira infância.

A minha rotina de trabalho em Varanasi passa sempre, de noite, por Manikarnika. É a fronteira da vida e da morte, o lugar onde tudo termina e recomeça. Depois de Manikarnika, nascido o novo dia, a luz seca e íngreme que se levanta deixa de me interessar. Regresso ao quarto para dormir e devolver ao corpo o que lhe roubei durante a madrugada, mas, no caminho, costumo parar ainda no Hospital Psiquiátrico da cidade, um edifício com vários andares, em desactivação.

O território de fronteira entre os que se dizem normais e os considerados dementes seduz-me em primeiro lugar pelas entradas de luz misteriosas que a arquitectura promove. Mas o abandono recente do mobiliário hospitalar dá-lhe ressonâncias de passado. Ecos de sofrimento agarrados às paredes, aos utensílios médicos. O silêncio interrompido por memórias. Percebi ao fim de algum tempo que estava mais uma vez a explorar uma fronteira das minhas geografias identitárias. Quem sou, que lugar ocupo neste espaço vazio, que recordações me trazem a frieza das divisões devolutas, a melancolia dos objectos abandonados? Como sou permitido vaguear diariamente pelos quartos e corredores do hospital, como uma liberdade pouco habitual numa casa de saúde, sem perguntas ou restrições dos funcionários do hospital?

Numa das últimas ocasiões deste exercício diário fui confrontado com uma sinceridade ainda não experimentada. A sair do edifício, um cão que guardava o portão de saída para a rua estacou em frente, ladrando-me com uma agressividade alarmante. Lembreime dos sobressaltos das matilhas em Manikarnika. Nessa manhã, custou-me adormecer.