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Macambúzios

Num dos workshops que dou regularmente, desafiei os alunos e irem para a rua fotografar pessoas sem que estas se apercebessem. O meu pedido não era para apanharem vítimas ao longe, com o voyeurismo que as teleobjectivas permitem, mas antes que as fotografassem o mais próximo possível, invadido-lhes o espaço, procurando que a imagem dessa uma sensação de proximidade e risco que nenhuma fotografia tirada na segurança da distância consegue dar. Mostrei alguns trabalhos de Bruce Gilden, Mark Cohen, um ou outro exemplo de Michael Ackerman. É uma escola de fotografia de rua que tem muitos discípulos, é certo, mas interessava-me o desafio de explorarem uma abordagem agressiva, de risco e de adrenalina.

Na verdade, o desafio era também auto-imposto. Sempre fiz questão de obter permissão das pessoas que fotografo, sempre gostei de criar uma relação de proximidade e deixar que fosse o tempo e a aceitação da minha presença a criar as condições para que a espontaneidade do momento pudesse ser registada. Sabia teoricamente como concretizar o exercício que propusera aos alunos, mas nunca tinha experimentado a sensação de arriscar a proximidade não consentida, nunca tinha precisado de fazer a gestão moral de uma fotografia roubada em vez de oferecida.

A partir daquela tarde, e nas manhãs e tardes que se seguiram, ao longo de semanas, meses, sempre que os prazos de outros trabalhos que tinha na agenda acalmavam, saía à rua para experimentar essas sensações e aperfeiçoar uma técnica fotográfica nova para mim. Descobri então, nessa magia de congelar as acções das pessoas em finas fatias de um milésimo de segundo, que a maioria de nós, onde evidentemente me incluo, anda pela cidade com um ar muito macambúzio.

  • Date:

    09/15/2018
  • Categories:

    Projects